
… está tudo bem.
Eu vou manter meus olhos fechados, não ver o tempo passar, e pensar que estou rodeada por perfeição e tranquilidade.
Vou manter minha mente ocupada com coisas boas e úteis, não deixar minha imaginação fértil me atacar, e fingir que tudo está em seu devido lugar.
OK!
Até parece…
Meus olhos mais vermelhos e arregalados possíveis, o tempo será o último a ajudar, o caos dentro de mim vai ser o primeiro a se mostrar e a me consumir pouco a pouco.
Minha mente mais deteriorada e suja possível, pensamentos duvidam, enlouquecem e não prestam. A bagunça longe, perto, ou em qualquer lugar que esteja, literalmente, fode tudo.
O meu mundo não é uma esfera levemente achatada e, nem é azul, não tem camadas denominadas hidrosfera, biosfera, atmosfera, sei lá mais o que …, e ele não orbíta ao redor do Sol.
Meu mundo sofre constantes mutações, sejam elas boas, ruins, mínimas ou violentas, meu mundo, continuará sendo meu mundo. Terremotos e erupções vulcânicas eu consigo suportar, com todo o prazer, e até as acho necessárias.
No meu mundo, eu tenho cavado um buraco que se torna mais profundo lentamente, e a cada centímetro aprofundado eu percebo e sinto o quão quente é o seu interior.
Não sei, mas só sei que meu mundo é o melhor para se viver, meu mundo é tão lindo.
…Agora deixe-me ir preservá-lo!

Jamais imaginei estar perdida aonde estou, jamais mesmo.
No dia em que eu encontrei esse labirínto, eu só observei e pensei que era só mais um labirínto sem graça e fácil de escapar, e tinha decidido que nem ia perder o meu tempo entrando nele.
Eu trombava com esse labírinto todos os dias, e mesmo com um monte de duendes e fadinhas insistindo na minha orelha para eu me perder nesse lugar, eu sempre me negava a cair na lábia deles. Certo dia, após comer uns cogumelos alucinógenos, estava passeando sem rumo e dei de cara com esse labirínto, novamente, só que dessa vez o labirínto piscava, brilhava e na minha cabeça eu via vagalumes dançando e dizendo “vai na fé gata, entre e se divirta…”, e obedecendo os bichinhos dançantes e brilhantes, meio louca, sem graça e sem vontade, eu entrei, e logo após entrar, tudo começou a girar loucamente, as luzes se apagaram e a confusão dentro de mim começou, era praticamente impossível saber o que fazer aqui dentro, mas eu sabia que parada eu não podia ficar e comecei a andar, e a cada minuto que passava eu me sentia infinitamente perdida, e a cada dia que passava eu me sentia parte desse labirínto, tanto que hoje eu já desisti de achar a saída, e o que eu realmente quero é me perder cada vez mais e mais… !
Era uma vez uma menina, que não era relativamente normal, era baixinha, cabeçuda e se chamava Camila.
Camila morava ao lado de uma loja de brinquedos, e a visitava todos os dias. Sentava no chão, em frente a uma enorme prateleira, onde lá no alto se encontrava o que ela queria e sonhava fazia um bom tempo. Ela ficava lá, apenas observando e pensando.
Certo dia, alguma força sobrenatural fez com que esse brinquedo caísse no chão, Camilinha entrou em choque, não conseguiu acreditar que esse brinquedo estava tão próximo, mas seu chocamento e falta de ação não resultaram em nada, pois logo após o brinquedo cair uma das vendedoras o colocou de volta, em seu suposto devido lugar.
A menina sonhadora abaixou a cabeça, derramou uma lágrima e continuou a observá-lo.
Até que um dia apareceu outra menina baixinha e cabeçuda sentou ao lado de Camila e começou a olhar e desejar o mesmo brinquedo, só que essa menina não suportou a idéia de ficar só no desejo, ela roubou uma escada, colocou-a em frente à preteleira, subiu, subiu, subiu, alcançou o tão glorioso brinquedo, o agarrou, e saiu correndo com ele.
Camilinha viu aquela cena e não fez nada, e a única coisa que ela faz até hoje é, justamente, só se lamentar.

Presa numa caixa de vidro, eu só observo.
Meus movimentos são curtos e cuidadosos, movimentos bruscos me machucariam, e as pessoas só notariam os cacos.
Minha voz não dá algum sinal de existência, mesmo que desse, falaria sozinha.
Minha pele não sente vendavais, nem uma brisa, não sente frio, não transpira ou se arrepia.
O único sentido que percebe o caos através da minha isolação de vidro, é a minha visão.
E olhando tudo, presa aqui dentro … Eu não posso fazer nada!


